Tensor da Fáscia Lata (TFL)

Algumas considerações sobre o TFL associadas a outras "cositas" mais.

MÚSCULOTREINAMENTO DESPORTIVO

Prof Gabriel Ramos

3/2/20268 min read

O Tensor da Fáscia Lata (TFL) é um músculo fusiforme localizado na região anterolateral do quadril, responsável pela estabilização da pelve e alguns movimentos da coxa.

Inserção proximal

  • Espinha Ilíaca Antero-Superior - superfície externa;

  • Crista Ilíaca - lábio externo da parte anterior da crista;

  • Fáscia Lata - face profunda da fáscia que recobre o glúteo médio.

Inserção distal

  • Trato Iliotibial - terço superior da coxa, entre as duas camadas do trato iliotibial (fáscia lata), que desce pela face lateral da coxa e se insere no côndilo lateral da tíbia (no tubérculo de Gerdy).

Ação

Flexão, abdução e rotação interna do quadril; ajuda na estabilização do joelho.

A Síndrome do Trato Iliotibial ou "Síndrome do Corredor", é uma lesão por esforço repetitivo que causa dor aguda na região lateral do joelho, sensação de queimação, sensibilidade ao toque, às vezes inchaço leve quando inflama. O Trato Iliotibial é uma banda de tecido fibroso que vai do quadril até a lateral do joelho. Ao sofrer atrito excessivo contra o osso do fêmur, em movimentos de flexão e extensão do joelho, pode inflamar.

Como escrevi a inserção distal do TFL é no Trato Iliotibial.

Durante a corrida, por exemplo, a força da passada vem do quadríceps, gastrocnêmio e sóleo. O correto posicionamento biomecânico do corpo na aterrissagem potencializa a aplicação dessa força. O TFL é um músculo auxiliar que, ao rotacionar o quadril (e, dessa forma, a coxa) em direção à linha média do corpo, ajuda no recebimento e direcionamento para o solo de toda carga (incluindo o peso do corredor) imposta pela intensidade que o corredor está imprimindo na sua passada.

Quando aumentamos o ritmo, corremos em subidas, descidas, terrenos irregulares (exemplo: correr sempre do mesmo lado de uma pista com leve caimento lateral), estamos cansados... exigimos muito do TFL. Usar calçados com a sola gasta ou que não se adequam ao seu tipo de pisada (exemplo: pisada pronada, pé plano) e ter glúteos fracos pode comprometer ainda mais a função desse músculo. Diferenças morfofuncionais e individuais também não podem ser descartadas: joelhos valgos; pelve larga (aumento do ângulo Q); diferença no comprimento dos membros inferiores; histórico de lesões no quadril, joelho ou tornozelo. Tudo isso pode sobrecarregá-lo.

Agora vamos dizer que a pessoa ainda apresente um Valgo Dinâmico (o joelho "cai" pra dentro - adução e rotação interna do quadril), aumentando a pressão no compartimento lateral do joelho, pressionando também ou até interferindo no movimento da articulação patelofemoral? Será que essa rotação interna excessiva pode acontecer por causa de um TFL "descalibrado", produzindo tensão excessiva, talvez encurtado... as possibilidades são muitas.

O que o profissional de Educação Física deve entender é que tudo no corpo saudável funciona de forma encadeada, mesmo que às vezes não pareça. Um TFL, ou qualquer outro músculo agindo de maneira "descalibrada", seja por qualquer uma das muitas razões que um músculo pode não estar "funcionando" muito bem, pode mudar a distribuição de carga em alguma outra estrutura (exemplo: ligamento, outro músculo, um osso) e essa mudança pode gerar desalinhamento; excesso ou falta de pressão, tensão, atrito, etc.; lesões agudas; entre outros. Esses fatores, por sua vez, podem gerar lesões crônicas e por aí vai, tudo encadeado! Sendo assim, um aumento de tensão no TFL pode aumentar também a tensão na Banda Iliotibial, não pode?

Agora o que seria essa sensação de tensão? Muita gente pode interpretar tensão excessiva como falta de flexibilidade (músculo encurtado), outras pessoas podem associar a uma dor ou desconforto. O que as pessoas podem não saber é que essa sensação de tensão pode ser por falta de condicionamento. Não é que a pessoa não tenha força ou qualquer outra valência física, é que ela não teve a valência física específica condicionada para carga de trabalho que foi imposta para realizar determinado exercício ou tarefa motora. Aí, um ou mais músculos podem ficar sobrecarregados. Um músculo sobrecarregado envia sinais elétricos para o cérebro dizendo "Se liga! Eu não estou preparado para fazer isso!".

Sinais elétricos precisam ser interpretados. Nossa consciência (mente) faz isso. Ela precisa interpretar essa informação elétrica e transformar numa "linguagem" que seja entendida pelo nosso corpo. Uma linguagem que nosso corpo entende são as sensações. Tensão e dor são sensações, formas com que a nossa consciência se comunica com nosso corpo. É por isso que no Yoga, por exemplo, aprendemos a nos autoconhecer prestando atenção no que estamos sentindo e através das nossas sensações, acessamos a percepção do "Eu".

Nem sempre um músculo tenso é um músculo encurtado. Nem sempre a causa de uma sensação, quando lidamos com seres humanos, tem uma resposta simples, pronta, que um influencer postou em uma rede social ou você leu num artigo científico que achou maneiríssimo porque ia de encontro com o que você estava pensando. Nunca podemos descartar outras possibilidades, devemos "desconfiar", investigar, nos aprofundar, considerar outras questões, inter-relações, conexões, por fim, ter cuidado.

Nem sempre as pessoas que atendemos sabem se expressar ou expressar o que estão sentindo. Elas leem e escutam um monte de coisas, criam opiniões próprias, mentem, acreditam em pseudoespecialistas, se comparam com outras pessoas, inventam soluções, às vezes acertam, às vezes não. Nós também fazemos isso.

Precisamos filtrar informações, analisar, estudar cada pessoa que atendemos e estudar continuamente para atender de forma cada vez mais assertiva e certeira. Cada caso é um caso, cada pessoa, de alguma forma, é diferente de uma outra que você já atendeu. Talvez, a primeira resposta para as perguntas dos nossos alunos deveria ser: DEPENDE.

Um músculo bem condicionado, forte, pode suportar uma sobrecarga maior. Como estamos falando do TFL, elevações laterais com rotação externa e pranchas laterais com abdução do quadril são bons exercícios para ele e para o glúteo médio. Qualquer pessoa pode fazê-los sem precisar de um equipamento específico. O glúteo médio, no caso, é importante porque suporta grande parte da carga e posicionamento do fêmur, é o principal estabilizador lateral da pelve durante o apoio unipodal, essencial na corrida e no andar. Entender o conceito de "suporte muscular" é valioso porque sempre que ele falta, uma articulação absorve mais impacto do que deveria. Se a dor associada a "Síndrome do Corredor" estiver aparecendo, reduzir o volume da atividade física, aquecer melhor, acertar o tempo de recuperação e fazer liberação miofascial podem ajudar até que a razão mais provável seja descoberta.

Nesse ponto do texto, preciso escrever um pouco sobre pressão e carga.

Biomecanicamente falando, pressão é a quantidade de força aplicada perpendicularmente sobre uma determinada área de superfície do corpo (tecidos, articulações, pele). Carga é o estresse físico, forças externas ou internas e tensões mecânicas aplicadas aos tecidos do corpo (músculos, ossos, tendões, articulações, ligamentos).

Pressões em determinados pontos surgem em função da distribuição de cargas sobre nosso corpo (externa e internamente). Pressão não é força, é como uma força é distribuída. Pressão depende da área sobre a qual a força é aplicada. Carga não é peso, é a demanda total imposta aos sistemas do nosso corpo por um estímulo. Sobrecarga é quando a tolerância à carga excede a capacidade funcional do nosso corpo. Não deve ser confundida com sobrecarga progressiva, um dos princípios do treinamento físico. No treinamento físico, a sobrecarga funcional está mais associada ao "overtraining" (estresse excessivo sem recuperação adequada gerando fadiga crônica, diminuição do desempenho, alterações no sono, dores musculares, aumento do risco de lesões) e ao "overuse" (repetições excessivas, sem tempo de recuperação e fortalecimento adequados gerando inflamações crônicas).

Explicar as diferenças entre Pressão e Carga nos ajuda a entender porque na "Síndrome do Corredor", uma sobrecarga funcional do TFL pode provocar aumento de tensão na Banda Iliotibial e dor aguda no compartimento lateral do joelho, pois são as estruturas desse lado que são comprimidas pelo aumento de pressão no sentido craniocaudal, quando, pelas razões já citadas, a distribuição de cargas fica alterada durante a passada. Por outro lado, se houver um problema estrutural (exemplo: joelho valgo), somado a sobrecarga funcional, também haverá um aumento de pressão nas estruturas mediais, no sentido laterolateral, forçando a abertura da parte interna do joelho, tensionando o Ligamento Colateral Medial (estabilizador medial dessa articulação), que, com o tempo, ficará enfraquecido e frouxo, deixando o joelho predisposto a outros tipos de lesão.

Para elucidar ainda mais como tudo em nosso corpo se conecta - e por isso, uma consequência pode ter uma falsa causa, cuja origem real, depois de bem analisada, pode ser bem diferente do que pensamos - vamos falar um pouco de cadeias musculares.

Cadeias musculares, de forma simples, são músculos com a mesma direção e sentido trabalhando como se fossem um só, mas o conceito e seus desdobramentos podem variar um pouco, dependendo da linha de estudo. Seu conceito pode explicar, por exemplo, porque uma dor medial no joelho pode ser causada por um reto abdominal encurtado (eu não vou explicar isso agora).

Gosto de visualizar as cadeias musculares como segmentos de músculos, organizados por fáscias e aponeuroses, sem um começo e fim definido, atuando como linhas de força do nosso corpo. Por exemplo, sua postura é o resultado do trabalho de uma cadeia anterior e posterior. Essas cadeias envolvem vários músculos da parte de frente do seu corpo e vários da parte de trás. Só com essa ideia, você já pode imaginar como um problema em uma região pode ter origem em outra. Muitos problemas em nosso corpo são reflexos de outros problemas. Estudar cadeias musculares pode nos ajudar a analisar alguns deles (nossos nervos são um outro exemplo de estruturas que conectam todo nosso corpo).

O próprio TFL, assunto deste post, que usei para costurar diversos conceitos sobre os quais pincelei informações, faz parte de uma cadeia lateral (entre outras), sendo o principal componente superior do Trato Iliotibial, portanto, ele não atua sozinho e sim com outras estruturas para, por exemplo, estabilizar a pelve e o joelho durante o correr e o andar (como já expliquei).

Concluindo, quis usar como título desse post o nome de um simples músculo, para a partir de sua descrição, desenvolver um texto "bola de neve", fazendo associações com sua importância na corrida, sua relação com a "Síndrome do Corredor" e conectando conceitos com algumas explicações para provocar reflexões no leitor de quão complexo pode ser o trabalho de um profissional de Educação Física realmente interessado em atender bem; de quanto ele precisa estudar (e continuar estudando sempre), analisar, interagir com conhecimentos de outras áreas para servir melhor e, acima de tudo; de quanto precisa desenvolver sua sensibilidade para ter empatia no trato com seu aluno e perceber detalhes sutis, tanto no que ele (seu aluno) diz, como no que ele não diz, permitindo uma conexão mais profunda com suas necessidades e uma compreensão analítica aguçada para ajudá-lo a atingir suas metas ou resolver questões que o incomodam, livrando-o de armadilhas, incorporando na sua rotina, um estilo de vida saudável.

É isso! Vamos que vamos. Até o próximo post!